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sexta-feira, 1 de julho de 2011

RENÚNCIA



Renunciar. Todo o bem que a vida trouxe,
toda a expressão do humano sofrimento.
A gente esquece assim como se fosse
um vôo de andorinha em céu nevoento.

Anoiteceu de súbito. Acabou-se
tudo... A miragem do deslumbramento...
Se a vida que rolou no esquecimento
era doce, a saudade inda é mais doce.

Sofre de ânimo forte, alma intranqüila!
Resume na lembrança de um momento
teu amor. Olha a noite: ele cintila.

Que o grande amor, quando a renúncia o invade
fica mais puro porque é pensamento,
fica muito maior porque é saudade.

(Olegário Mariano)

HORA MEMÓRIA



Há rostos que nunca se irão.
Outros jamais veremos
mas aí estão,
sempre.
Nunca conheceremos todos
os convivas.
Nem os mais próximos.
Sequer o irmão.
A memória retém os
que devem ficar.
Mesmo os que, fugazes,
teimam em partir.
Lembrar é fingir.

Antonio Fernando de Franceschi

A PROCURA



Andei pelos caminhos da Vida.
Caminhei pelas ruas do Destino-
procurando meu signo.
Bati na porta da Fortuna,
mandou dizer que não estava.
Bati na porta da Fama,
falou que não podia atender.
Procurei a casa da felicidade,
a visinha da frente me informou
que ela tinha se mudado
sem deixar novo endereço.
Procurei a morada da Fortaleza.
Ela me fez entrar:
deu-me vestes nova,
perfumou-me os cabelos,
fez-me beber de seu vinho.
Acertei o meu caminho.


Cora Coralina

SUSSURO



Aquiete-se para ouvir o silêncio;
a clorofila escorre pela haste,
a sombra e o sol ecoam um contraste
de quentes e frios na linha divisória.
Tente escutar a história da brisa
quando passa empurrando
a bruma,que,tola,embaça a púrpura da rosa.
Esta conta prosa de sacerdotisa.
Faça atenção ao momento de explosão
da metamorfose
que irrompe em grande dose
de véus e açúcares.
Sinta o cochilo dos nenúfares.
Se conseguir atingir
o ponto mais profundo da quietude,
vai poder ouvir o coração do colibrí.
Ele bate minúsculo num peito passarinho.
A Terra se mobiliza para entoar
uma sonata azul em homenagem
a esse músculo coberto de plumagem,
que tão pequenininho é tão capaz de amar.

Flora Figueiredo

MORRER



Há pássaros cansados,
estrelas sem lumes,
flores vazias,
crepúsculos sem cor.

Contemplações!
atores mudando de cenas
para o espetáculo
das reencarnações!

Morre-se
verdadeiramente,
quando, a cada dia,
no olhar

vivemos uma lágrima ,
num gesto calamos
e numa carícia
ausentamo-nos do amor!

Alvina Tzovenos
In Sonhos e Vivências